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É o fim das gravadoras? Modelo independente cresce no mercado musical, mas traz desafios

g1.globo.com
É o fim das gravadoras? Modelo independente cresce no mercado musical, mas traz desafios


Christian Hartmann/Reuters
Uma pesquisa recente do Spotify apontou que, em 2025, mais de um terço dos artistas que geraram US$ 10 mil (cerca de R$ 50,1 mil) ou mais em royalties do Spotify eram independentes ou iniciaram a carreira dessa forma.
O dado da pesquisa vem quase dois anos após um estudo da Midia Research, que apontava que, em 2023, a música independente já representava 46,7% do mercado.
Artistas independentes são aqueles que estão fora de grandes gravadoras, como Sony, Warner e Universal. E lançam suas músicas por conta própria através de distribuidoras independentes.
Na era das plataformas digitais, esse lançamento independente se tornou porta de entrada para artistas no início de carreira. Afinal, para chamar a atenção das gravadoras, hoje, além de talento, "números" são muito importantes. Mas muitos artistas que estão há anos no mercado também estão optando por encerrar seus contratos com as gravadoras e seguir o modelo independente.
"Fiquei durante muitos anos dentro de gravadora. E a partir do momento que eu vi que, para mim, não estava sendo legal, apenas fiz um acordo com eles, saí e resolvi fazer minha carreira independente", afirmou Diogo Nogueira durante participação no podcast g1 Ouviu.
"Estou há oito anos independente. É mais difícil, a gente tem que trabalhar mais. Mas como temos muitas amizades e tem pessoas que gostam da gente, do nosso trabalho, a gente consegue também trabalhar de uma forma bacana".
Mas o que significam esses dados do Spotify e a crescente do independente? As gravadoras vão desaparecer? Vale a pena estar fora delas? Quais os prós e contras de ser um artista independente? O g1 conversou com alguns especialistas para entender estes e outros pontos.
Faturando fora do mainstream
Estúdio na sede do Spotify, em Estocolmo
Divulgação/Spotify
Primeiro, é importante entender o tamanho do artista que entra nesta conta do Spotify. Segundo Gustavo Deppe, advogado especializado em direito autoral na música, um artista que recebe ao menos US$ 10 mil em royalties já é um artista midstream (ou seja, um artista "médio").
Ele não é exatamente grande (como o mainstream), mas "já tem uma base de fãs forte, sólida. Já tem centenas de milhares de plays, às vezes até milhões de plays no Spotify mensal, ou ouvintes mensais", explica o advogado.
"O mercado hoje está muito nichado, mas, categoricamente, eu consigo dizer que é um artista que, se consegue fazer isso constantemente, tem uma base de fãs sólida."
Deppe também afirma que apesar de, hoje em dia, haver mais facilidade na produção e distribuição musical, é importante esse artista independente, assim que possível, montar uma equipe para as outras diretrizes do projeto.
"Hoje em dia, a parte da criação musical está muito mais fluida. Você consegue, no seu quarto, fazer uma música bem satisfatória para o Spotify que pode chegar no top 50, top 10. Ou top 1, quem sabe, se viralizar. Mas esse artista que quer ser independente precisa ter alguma estrutura para montar uma equipe, o que é extremamente custoso".
"É uma atividade empresarial, então tem que ter cabeça de empresário. O que é muito difícil porque você tem que tomar decisões econômicas toda hora. É possível? Perfeitamente. Antigamente era quase impossível você conseguir. Porque tinha uma barreira na distribuição muito grande, porque a distribuição era física."
Independência total! Será?
Alguns artistas que deixaram grandes gravadoras costumam apontar “liberdade de criação” e “independência” como pontos positivos ao assumirem suas carreiras. Mas essa independência e liberdade vem acompanhada de desafios.
Em 2022, em conversa com o g1, Luedji Luna disse ser "cansativo você ser sua única investidora sempre". "Às vezes você quer ter um motor ali empurrando seu barquinho, você quer ter alguém ali para que reme com você", disse a artista, sonhando com um investidor (que não, necessariamente, significa uma gravadora).
"Estou nos festivais, tenho público, tenho seguidores, mas que não chega a um milhão, meus shows dão sold out, minha carreira é respeitada pela crítica. Isso não é o suficiente para eu ter esse motor?", questionou.
Outro ponto é a necessidade de ir muito além da música quando você não tem esse "motor" citado por Luedji.
“Você precisa dominar várias disciplinas. Cada vez mais você tem que entender da parte burocrática, ter o especialista ou se tornar especialista de marketing digital, entender de negociação de royalties, de mídia e tráfego, de redes sociais. Você não é só independente. No final, você é uma empresa”, afirma André Izidro, 46 anos, CEO e cofundador da Atabaque e da Rumpi.
Criada com foco no artista independente, a plataforma Rumpi propõe centralizar processos como gestão de royalties, contratos, catálogo, direitos conexos e dados de performance em um único ambiente.
Nando Reis
Felipe Maior
Essa parte burocrática costuma ser absorvida pelas gravadoras. Mas ao se tornar independente, o artista precisa ter domínio destes e outros tópicos para não perder dinheiro e espaço no mercado. E para ser visto.
“Fazendo uma analogia com outras empresas, o dono começa fazendo tudo, botando a mão na massa, criando a padaria, sendo padeiro. É mais ou menos o mesmo lugar ali. O artista precisa entender e contratar gente boa. Mas se ele entender do negócio dele, todas as etapas, é muito mais fácil de trazer as pessoas certas, de conectar, de cobrar, de estar junto”, completa André.
Em 2021, nove anos após se tornar independente por decisão da gravadora (“A Universal não quis renovar meu contrato”), Nando Reis fez um vídeo para contar sua trajetória no novo formato de carreira. Ele falou sobre os desafios da independência e a necessidade de se cercar de “pessoas com habilidades técnicas para” cada setor.
“Quando estava em gravadoras, realimentei um lado meu que era relapso. Um pouco de credulidade, um pouco de preguiça, é chato pra *. Números, reuniões, vigilância, direitos, enfim... eu tive que passar nesse momento, revisar os meus contratos antigos com gravadoras nas novas bases e essa é uma luta onde há interesses distintos”, afirmou o artista, que hoje, tem seu selo independente.
Nando ainda falou sobre o amadurecimento fora das gravadoras.
“Eu vivi durante anos achando que subir ao palco era festa, ser doidão. Uma das coisas que me ajudou a tomar nessa decisão de parar de usar qualquer coisa que altere minha consciência foi ser um artista independente. Não dá, não existe, não tem ninguém tomando conta.”
Então é o fim das gravadoras?
Billie Eilish e Finneas posam com o prêmio de canção do ano e o prêmio de melhor canção escrita para mídia visual no Grammy 2024
David Swanson/Reuters
Há tempos já se fala sobre um possível fim das gravadoras. Ao fazer suas análises, especialistas que conversaram com o g1 não acreditam no fim, mas apontam a mudança no papel delas.
“Por que que começou a falar muito do fim das gravadoras? Porque antes estúdio só existia dentro de gravadoras. Aí vem a Billie Eilish, ‘rapa’ o Grammy, fazendo um disco de dentro do quarto e que o produtor era o irmão com um computadorzinho de mão. Então, será o fim das gravadoras? Acho que isso é mais clickbait do que realidade”, defende Odilon Borges, de 47 anos, sócio e cofundador da Atabaque e do Rumpi.
“Não é o fim das gravadoras, porque ainda as marcas batem muito lá. Acho que tem o espaço de cada um. A gravadora não vai se preocupar tanto com o artista midstream, ela quer focar no Caetano Veloso. Então a máquina já tá azeitada, nada muda de uma hora pra outra. Hoje a gravadora não é o único caminho, mas ainda não dá pra falar do fim delas”, completa ele.
André concorda com o sócio e aponta que, mesmo com todos os números citados sobre música independente, metade da receita global está ligada à gravadora.
“Eles ainda continuam no topo da pirâmide. Eu acho que o que esse modelo de distribuição independente fez foi capilaridade. Quando você facilita esse lugar de entrada de vários títulos de uma vez só, você abre espaço realmente para os independentes estarem ali”, analisa André.
“Eu tenho batido na tecla de que as gravadoras têm virado cada vez mais banco, porque estão ligadas cada vez mais a dados. E o diferencial deles é adiantar dinheiro no tempo, comprar catálogo. Eles estão com menos olhar e menos apetite quando a gente fala para desenvolvimento de carreira”, conclui.
André ainda aponta que, em alguns mercados, fazer parte de produtoras faz mais sentido para os artistas do que estar em gravadoras. “Eles estão menos preocupados sobre onde a música deles está distribuindo, e mais preocupados em fazer show com essas produtoras que são muito fortes.”
Agora no g1




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